Os sindicatos, os “lesados do papel comercial” e os milionários ocultos

Qual é a força dos “lesados do papel comercial” do BES/GES? As câmaras de televisão. Qual é a força dos sindicatos? As câmaras de televisão. E o que é que têm mais em comum? A ignorância generalizada do que realmente são e representam.
É estranho que nunca tenha havido na imprensa portuguesa uma reportagem e/ou uma investigação jornalística sobre os sindicatos portugueses. 
Não se sabe quantos associados têm, quais são as suas receitas e os seus prejuízos, que activos têm, se possuem propriedades imobiliárias, veículos, se investem o seu dinheiro ou não. 
Sabe-se, porque se vê, que arranjam sempre dezenas de autocarros para as suas manifestações e suspeita-se de que conseguem financiar grevistas (nem todos: nos transportes públicos sim, mas não os professores).

A opacidade sindical

O resto é um mundo de estranha opacidade, que desafia mesmo a mais natural das curiosidades: os sindicatos têm hoje menos associados ou mais associados do que, por exemplo, há vinte anos? Ou: houve alguma alteração no sindicalismo português que tenha acompanhado realidades novas e tão diferentes como a multiplicação dos postos de trabalho nas grandes superfícies comerciais, o alargamento dos “recibos verdes” (às vezes por conveniência dos próprios) ou a “proletarização” dos micro e pequenos empresários.
O certo é que conseguem sempre tempo de antena nas televisões mesmo quando fazem uma manifestação de meia-dúzia de pessoas ou quando gritam, gritam e gritam à porta de uma escola e sempre pelos mesmo motivos.
É o que se passa com o grupo (que já parecer ser uma associação formal) dos “lesados do BES/GES”, que terão investido nos títulos de crédito agora designados por “papel comercial” cerca de 550 milhões de euros. Têm garantida a cobertura das televisões (por darem sempre espectáculo?...) e conseguem notícias que poucas vezes vão ao fundo da questão: muito ou pouco, o que investiram destinou-se a aplicações de risco e, como tal, ganhariam com juros mais elevados. 
As histórias que contam diante das câmaras da televisão os que se manifestam são de miséria: muitos investiram tudo o que tinham e o desmoronar do BES/GES atirou-os para a possibilidade de perderem alguma coisa, ou quase tudo.

Os milionários escondidos
Mas é essa a única situação? Não, os “lesados do BES/GES” não são todos pequenos aforradores. Segundo uma das poucas notícias que se encontram sobre o assunto (“Notícias da Manhã”, 27/04/15), dos 2508 investidores do “papel comercial”, houve 60 que investiram, cada um, mais de um milhão de euros. E cerca de 200 investiram mais de meio milhão de euros, cada um. No total destes milionários há 180 milhões de euros “perdidos”.
Ressalvando o facto de ser moral e financeiramente duvidoso que, neste jogo de sorte e azar, se devolvam os 550 milhões de euros por inteiro aos 2508 “lesados” (que aceitaram o risco inerente), e se podemos acreditar que houve pessoas que perderam apenas milhares de euros e não teriam mais nada, também deveremos acreditar que os tais 200 que investiram mais de meio milhão ainda terão ficado com algum e/ou que ganham o suficiente para esperarem por uma decisão final antes de andar aos gritos na rua.
Essa parte da história, no entanto, não está na imprensa portuguesa.

Os milhões que influenciam

E talvez haja um motivo para isso: uma parte significativa dos milionários “lesados” disporá de uma suficiente capacidade de influência para, atirando à refrega os que estão em pior situação e dão a cara, forçarem a atenção das televisões e dos jornais para as manifestações. E como? As possibilidades são ilimitadas, do compadrio ao pagamento duvidoso, passando pela ordem directa à agenda jornalística.
Porque eles sabem que se houver alguma cedência imponderada aos “lesados”, que por hipótese passasse pela devolução dos tais 550 milhões de euros, eles também ganharão. Mais do que todos os outros.
Tal como esperam, aliás, ganhar com uma vitória do PS nas eleições porque o actual presidente do PS, Carlos César, já disse que um eventual governo socialista lhes devolveria tudo. 
Sem, no entanto, dizer duas coisas fundamentais: que esses 550 milhões de euros que desapareceram na voragem do Espíritos Santos responsáveis pela crise do BES/GES serão “custos para os contribuintes; e se os milionários do “papel comercial”, organizada ou individualmente, prometeram ao PS, directa ou indirectamente, uma parte do que eles puderem recuperar.

Costa Cardoso


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