O caminho para o abismo com novos artistas: Sousa, Costa e outros

Um ignorante médio de economia sabe que uma crise de dívida como a que Portugal teve em 2011 implica sempre um travão e uma recuperação. Primeiro, trava-se a fundo, depois (o mais possível simultaneamente) enceta-se um processo de recuperação. 
A grande habilidade política está em conseguir a conciliação óptima entre o travão (vulgo austeridade) e o estímulo para garantir o crescimento. 
Pode-se dizer que esse objectivo foi conseguido na Grã-Bretanha de David Cameron e George Osborne, que encontraram o tesouro britânico delapidado pelos socialistas liderados por Gordon Brown, e em 5/6 anos recuperaram as finanças e a economia britânicas.
No Portugal de Passos Coelho e da Troika tal objectivo não foi conseguido. Apenas se apostou na austeridade virtuosa. O resultado foi desanimador e o governo de Passos não deixou saudades. Mas teve um grande feito, que foi afastar o país da bancarrota e começar a encetar um lenta recuperação. Do mal o menos.
A tomada de poder por Costa com o comentário animado do Presidente Rebelo de Sousa colocou o país a viver numa total realidade virtual. Por razões estranhas ficou-se a achar que estávamos ricos e a ordem para gastar tem sido a regra. Gasta-se mais, os números económicos melhoram, e até o déficit alcança resultado espectaculares. Como apesar dos erros de política económica não parece que Passos Coelho fosse sádico, há que questionar de onde vem tanto "sucesso" económico. 
Talvez se possa  dizer que estamos a assistir a um estímulo keynesiano da procura que com os seus efeitos multiplicadores começa a actuar e a fazer mexer a economia. É uma hipótese, a que o recente artigo de João César das Neves no DN (15-12-2016 )traz credibilidade. Escreve César das Neves que desde" que Costa tomou o poder até ao fim de Setembro, [a dívida pública]acelerou para 51 milhões por dia; (...)a segunda taxa mais elevada dos últimos dez anos." E acrescenta "Isto, aliás, explica o mistério que surpreende tanta gente: como pode o governo cumprir promessas e reduzir o défice? O truque é registar gastos directamente na dívida, sem passar pelo Orçamento. Só assim se explica que o endividamento esteja a aumentar quase tanto como nos anos de crise, apesar do défice parecer um terço da média de então."
Em suma, as palavras de César das Neves explicam o que efectivamente se passa. Algo de muito semelhante ao tempo de Sócrates. Tiram-se os gastos do orçamento, inscrevem-se noutras estruturas contabilísticas e apresentam-se números formais impecáveis. Entretanto, a dívida sobe e vai estrangulando tudo e todos, basta um abanão qualquer para ficar tudo a nu. E lá se têm que refazer as contas e perceber que afinal os números apresentados estavam mal.
A aposta de Costa e dos seus economistas é que o estímulo à procura leve a economia para um patamar de crescimento acentuado que convença os credores que o país está mesmo a crescer e não tenham medo do endividamento. Não "retirem o tapete", porque o país está a crescer mesmo e eles podem ganhar com isso. É uma aposta. Um jogo perigoso em que todos se podem estatelar, por que entretanto, Costa está a tornar a economia mais rígida (outra vez), com menos incentivos ao capitalismo e com o espectro do BE a acenar com medidas que são desconfortáveis para as empresas.
Mas Costa até pode alegar que foi numa política deste género que o povo votou, e só está a cumprir o mandato popular.
O mesmo não pode dizer o Presidente da República que deveria servir de alguma moderação ao governo, conferir alguma segurança aos agentes económicos e investidores. Embora se diga que tem muita popularidade, a verdade é que desbaratou todo o capital como homem ponderado e força moderadora. Haverá um momento em que o Presidente quererá ser levado a sério e só o ouvirão para tirar selfies.
Dá ideia que apenas aquela senhora de vetusta idade, Teodora Cardoso, se mantém alerta para o que se vai passando.
Neste momento, esta é a realidade triste. O resto é fogo-de -artifício.

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