A morte de Deus e o Facebook

O homem matou Deus, mas ficou desprotegido.

Atualmente, não há um sistema de valores consensual, nem a pluralidade é consensual. Talvez se viva naquilo a que Durkheim chama anomia, a evolução rápida da sociedade deixou as pessoas sem referências, sem quadros de valores e por isso sentem- se desorientadas e deprimidas. 
E daí a necessidade de uma nova religião, que mais não quer dizer que “ligação.” O Homem sem Deus procura uma nova ligação. Encontra essa nova ligação na “ligação à rede”. 
A internet, o Facebook, substituem Deus como ponto de contato, como ponto de ligação do homem com o outro. 
Do teocentrismo, ao antropocentrismo ao virtualcentrismo. É o mundo virtual que substitui o paraíso.
É no mundo virtual que oramos aos nossos ídolos, conquistamos e tentamos projetar a nossa vontade. 
Por isso, o Facebook é cada vez mais um fim e não um instrumento.
Quando pensávamos que os EUA nos iam trazer um novo mundo temporal no espaço sideral, com a habitação e exploração dos planetas, eis que nos dão um novo mundo debaixo do nosso nariz, onde projetamos os nossos céus e infernos. 
De alguma maneira, foi-nos entregue uma nova terra prometida, livre, sem compromissos, por explorar. Essa nova terra prometida é a internet. Não tem um Deus, mas um panteão de deuses. Google, Facebook e outros.
Neste tempo de redes sociais, de exposição mediática, de ativismo digital, deixaremos de ser porque não aparecemos na televisão ou nos blogues? Onde antes a nossa existência de relacionava com Deus ou a Pátria, agora será que depende da nossa relação com a virtualidade do mundo. A nossa identidade tornou-se de tal maneira exposta que se não estamos na esfera comunicacional não existimos?
Aristóteles dizia que o homem é um animal político (anthropos physei politikon zoon). Frase habitualmente mal interpretada, que não quer dizer que todos estamos vocacionados para ser políticos- no sentido de governantes, deputados, mas que todos nos realizamos na polis, isto é na comunidade. Os homens são seres sociáveis, e aqueles que se isolam ou são bestas ou deuses, clarificava Aristóteles.
Assim, a pergunta hoje é: aquele que não está nas redes sociais, não aparece na TV, nos media, é uma besta? Deixa de ser homem e mais se aproxima dos bonobos ou dos chimpanzés (o que em si mesmo não é uma desonra).
A pergunta não é descabida, porque se não somos definidos pela essência, pelo ser, mas pela existência, se essa existência não se demonstra, então não somos.
É que a resposta inicial a esta pergunta é que se não fazemos, se não estamos, não somos. Definhamos, a morte da existência acarretará a morte do ser.
Poderão objetar que estas considerações são disparatadas, que todos nascemos e só morremos quando fisicamente os nossos mecanismos vitais deixam de funcionar. Mas, aí o que nos distingue dos chimpanzés?
A resposta acerca do ser tem que ir mais longe do que o mero fisicismo.
Então, será dever do homem moderno para existir, procurar aparecer nos media, nas redes sociais? Não é apenas esse o dever das celebridades? Não bastará aparecer junto da nossa família, mesmo que pequena, assombrar-nos com a beleza natural ou ler um livro, para existirmos. Terá que haver uma “Wille zu Macht” (pedindo, mais uma vez, emprestado um termo a Nietzsche) digital ou mediática?
Não podemos existir sozinhos, sem contactos, sem expressões?
Algo diferenciará a pessoa humana. 
Durante milénios a grande diferença era a escolha divina. Nós éramos aqueles feitos à imagem e semelhança de Deus. Mas, Deus morreu. E com ele nós como seres também morremos. Renascemos como seres que existem. Portanto, a existência e a essência ficaram indelevelmente ligadas.
No entanto, a existência não é algo meramente material. Há uma existência no e com o espírito. Os Gregos falavam em ataraxia, um estado contemplativo, desinteressado, tranquilo.
Ora, é na ataraxia que encontraremos a resposta a estas dúvidas. 
O homem poderá já não ser algo criado à imagem e semelhança de Deus. Poderá não ter um sentido eterno ou infinito. Poderá ser um mero “primo” do macaco, com quem partilha um antepassado comum. Mas tal não lhe retira a opção e a liberdade de escolher a sua existência. Uns gostarão e realizar-se-ão através da comunidade, da participação, do mundo global e digital, mas muitos outros preferirão a tranquilidade, o bem-estar pacato. São duas formas de existência.
Em suma, ser continua a ser possível sem integrar o mundo de forma ativa e longe dos frenesins digitais.

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