Trump e Sócrates

De vez em quando o melhor a fazer é deixar de ler jornais...pelo menos alguns temas. É o que fiz a propósito dos comentários geralmente cretinos e histéricos sobre a vitória de Trump (em que o prémio da inanidade vai para o grande comentador Mendes de Carnaxide). Deixar passar a maré e depois tentar perceber. 
Mas desde já é preciso dizer que está em curso um movimento popular, possivelmente maioritário, que quer mudar o presente consenso ocidental: globalização, relativismo, insegurança. Convém lembrar as palavras de um autor muito importante para o socialismo britânico, mas esquecido por estes dias, Harold Laski, que na sua obra Grammar of Politics escrevia (tradução e resumo livre do autor)que a complexidade da sociedade moderna implicava que qualquer sistema de governo abandonasse o liberalismo tradicional. Isto aconteceria porque em alguma altura a espontaneidade, como defendida pelos liberais, era impossível e o homem sentir-se-ia mais seguro se uma norma comum de ação prevalecesse, a segurança pessoal fosse mantida e a incerteza fosse removida. ~
Em suma, preferia-se a segurança material à liberdade. Assim, o Estado seria uma organização para permitir que as massas atingissem o bem social na escala maior possível e o homem seria um membro do Estado para que, da mesma maneira que os seus concidadãos, ele próprio pudesse alcançar o seu melhor. Os direitos seriam correlativos com as funções. 
Não é muito diferente deste funcionalismo sócio-liberal defendido por Laski aquilo que Trump e muitos dos chamados "populistas" de hoje em dia defendem. Uma nova segurança para os cidadãos. Talvez conviesse perceber isto.
No entanto, o mais relevante da vitória de Trump para a política portuguesa é o exemplo que pode dar a José Sócrates. É um facto que este está assediado, colocado de lado pelo establishment político luso. Mas também é um facto que possui o tal carisma sobre que escreveu ou mandou escrever ou co-escreveu (pelo menos para uma boa parte da população). 
Ora não lhe será difícil começar a cavalgar em políticas populares e que tragam um sentimento de segurança à população (sobretudo depois do fiasco que este governo se está a revelar). 
Paulatinamente, Sócrates pode ultrapassar o processo-crime(que parece abafado) e surgir como o grande defensor dos descamisados, humilhados e injustiçados pelo sistema, como ele próprio, e à Trump, com estilo e retórica alcançar um eleitorado fixo que aposte nele e o eleja Presidente da República.
Por isso, em última análise, em Portugal, a vitória de Trump é um sinal para o avanço de Sócrates.

Rui Verde

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