Pode a sexualidade valorizar o currículo?

F.L., professor, poeta e tradutor, está a traduzir uma nova versão da Bíblia. É um facto cultural relevante embora, para todos os efeitos, nada vença a Bíblia dos Capuchinhos, de consulta fácil e à distância de meia-dúzia de cliques.
O jornal “Expresso”, talvez para variar da recente moda jornalística de entrevistar actores, actrizes e apresentadores e apresentadoras (não é assim que se deve escrever?), resolveu entrevistá-lo. E na capa da sua revista apresenta assim o entrevistado: “(…) Um dos mais brilhantes intelectuais portugueses, homossexual assumido e autor da primeira tradução da Bíblia a partir do grego. Uma questão de fé.”
Não se percebe bem a eventual relevância da última frase sobre a fé mas, aqui, o que interessa é a relevância da sexualidade do entrevistado. “Homossexual assumido” é aqui, pela ordem de construção do textículo da capa, mais importante até do que a tradução do grego. 
Mas, quando se penetra no texto da entrevista, a dúvida adensa-se. São 69 as perguntas (eu contei-as) e, delas, só 7 têm a ver com o exercício social (e é só) da sexualidade do entrevistado. E nessas 7 o mais longe que a entrevistadora vai é na opinião do cônjuge quando ao excesso de trabalho do entrevistado. Portanto, qual é a relevância da sexualidade e “assumida”? 
É possível que o pormenor da sexualidade do entrevistado tenha a ver com qualquer opção do jornalismo do “Expresso”. Aliás, é um aspecto que porá qualquer alma atenta a pensar se os passados e futuros entrevistados do “Expresso” também vão ser apresentados pela sua sexualidade.
De qualquer modo, é um precedente interessante. E até, sabendo-se da importância que a imprensa em geral tem junto dos decisores políticos dos vários escalões, pode vir a fazer lei. Lei, mesmo, ou norma social e profissional.
Aplicável, obviamente, aos currículos. 
Parece ser hábito dos jovens (e menos jovens?) inundar com currículos empresas e tudo o que parece ser empresa (até eu já recebi “candidaturas espontâneas” para o modesto blogue pessoal que mantenho). E parece ser hábito nas empresas nem olhar com profundidade para a chuva de “candidaturas espontâneas” que lhes chegam por correio electrónico, tal é a quantidade (e a qualidade…)
No entanto, talvez, à luz do precedente aberto pelo “Expresso”, seja útil aos candidatos incluírem a sua sexualidade no currículo, de preferência com a sua classificação (assumidos, ou não). Seria, decerto, um elemento sugestivo para captar a atenção dos destinatários dos currículos e, já agora e em nome da transparência, aumentar até as possibilidades de contratação, por interesse personalizado de quem contrata. 
E isto só para começar, porque há muitos outros pormenores pessoais que se podem sempre incluir…

Pedro Garcia Rosado

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Quem tramou Joana Marques Vidal? Sócrates ou Manuel Vicente?

O mistério de Luís Delgado e da Impresa

O fim do jornalismo português(2)