Oportunismo (de direita)

A participação indirecta do BE e do PCP no actual governo do PS é, desde o primeiro momento, estranha. 
Não se vêem, ao cabo de seis meses desta experiência política, resultados que possam ir no sentido do que, pelo menos teoricamente, defendem aqueles dois partidos. 
Não se percebe como é que se pode dizer que acabou a austeridade quando as restrições económicas atingem a maioria da população, a começar pelo brutal aumento do imposto sobre os produtos petrolíferos. E nem se pode dizer que a função pública também se viu livre da austeridade porque os seus salários não melhoraram substancialmente.
Ao contrário do que este fim de semana e hoje, segunda-feira, disseram os dirigentes dos dois partidos (numa espécie de competição ciumenta), o apoio do BE e do PCP ao PS serviu para uma única coisa: pôr os dois partidos no “arco da governação”, o que se torna especialmente aliciante para o BE e embaraçoso para o PCP. 
O BE e os seus dirigentes e quadros querem sentar-se “à mesa do orçamento” e usufruir de todas as vantagens. Não se esperaria outra coisa dos jovens radicais pequeno-burguesas de fachada socialista oriundos dos meios urbanos e suburbanos. É o que esperam vir s conseguir.
Mas no PCP ainda haverá dirigentes e quadros que percebem que a participação no Governo não trará benefícios ao partido, salvo se o País fosse suficientemente rico para suportar todos os disparates ou pudesse ter um Estado totalitário para evitar oposições e pensamentos divergentes. O único benefício para o PCP parece ser pessoal e intransmissível: o actual secretário-geral ganhou mais tempo de antena e pode servir de chapéu-de-chuva para alguns potenciais sucessores oriundos do grupo que controla.
Só que o fascínio dos dois partidos por um governo de prática conservadora e discurso rebelde está, e é esse um dos elementos que maior estranheza causa, situado claramente fora dos cânones do marxismo-leninismo. 
O que caracteriza o actual rumo dos trotskistas, maoístas e comunistas arrependidos do BE e dos comunistas órfãos de referências ideológicas do PCP é aquilo que os teóricos e práticos do marxismo-leninismo classificaram como “oportunismo de direita”: uma guinada à direita, um afastamento dos movimentos de agitação e de luta popular (veja-se a manifestação de apoio à política educativa deste governo), um espezinhar da ideologia e uma capitulação clara perante um governo que não é deles. Em nome de reformas ideais. Trocando a revolução pelo reformismo.
É um rumo que não está muito distante do que trilharam, a certa altura, os partidos comunistas francês (de George Marchais) e espanhol (de Santiago Carrillo) com o seu “eurocomunismo”. 
Hoje, como se pode ver, esses partidos praticamente desapareceram, deixaram vagos espaços eleitorais que dão para tudo e para o seu contrário e os picos eleitorais que conseguem os seus herdeiros indirectos (como na Grécia e em Espanha) acabam por não ter consistência ideológica ou política.
Depois do 25 de Abril, para não “meter medo” ao povo, Álvaro Cunhal promoveu a retirada das referências à “ditadura do proletariado” do programa do PCP. Esta cedência ao poder da terminologia política burguesa até pode ter favorecido o partido. 
Mas nem Jerónimo de Sousa, nem João Semedo (apesar dos seus arroubos de juventude) nem a sua discípula Catarina Martins têm as capacidades intelectuais e políticas de Cunhal. Que, se fosse vivo e ainda influente, teria travado este surto de oportunismo de direita do partido que refundou para combater mais vivamente o BE e o PS. Em nome da sua própria sobrevivência.

Pedro Garcia Rosado

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