Brexit: as dúvidas

O Brexit não pode ter sido uma surpresa. Desde os tempos de Margareth Thatcher que existia um profundo desconforto em Inglaterra com a permanência na União Europeia.Thatcher foi-se tornando euro-céptica. O partido Conservador viveu eternamente dividido. Já lá vão 20 anos. Os trabalhistas também tinham as suas dúvidas. Blair foi impedido de aderir ao Euro pelo seu chanceler Gordon Brown. E bastava ler os jornais mais populares ingleses, e muita da produção académica inglesa para se perceber que havia uma real cepticismo face à forma que a U.E. estava a tomar.
Nessa medida,não existe qualquer crítica a fazer a Cameron por ter convocado o referendo.Era seu dever devolver a palavra ao povo. Sabe-se que os fundadores da CEE sempre tiveram medo que a ideia não fosse bem aceite pelo povo, sobretudo depois do fiasco da criação da Comunidade Europeia de Defesa em França nos anos 50, e por isso procuraram fazer uma construção paulatina em temas em que não fosse chamada a atenção das populações.
O problema foi quando se passou a uma segunda fase em que se tentou criar um novo Estado não democrático, acima das Nações Europeias. Como escrevia Shakespeare "Too much of a good thing..."
Obviamente, a população europeia não quer perder a sua soberania, a sua identidade e sobretudo não quer que seja a Alemanha (por muito boas intenções que agora tenha) que comande esse supra-Estado.
Portanto, o Brexit é quase uma decorrência natural da evolução europeia e da história inglesa.
Neste sentido, há duas reacções que estranham. A primeira é a do próprio Cameron. Esta demissão a prazo é francamente negativa. Ou se demitia de imediato e promovia um governo amplo (como na época da Segunda Guerra Mundial) para implementar o Brexit com o máximo suporte nacional. E isso seria feito durante o fim-de-semana, ou ficava e conduzia o país. Esta atitude de se demitir daqui a ...três meses tira a liderança a Inglaterra num momento-chave e só contribui para o caos.
Por outro lado, a pressão e a pressa que os órgãos da UE tiveram em correr com a Inglaterra só dão  razão aos Brexiteers. Trata-se de uma falta de educação tremenda com todo um povo, um tratamento indigno. Se a UE fosse efectivamente solidária daria tempo para a mehlor solução e contribuiria para acalmar os mercados e não os excitar mais.
Estas duas atitudes são estranhas, e ou são burras, ou fazem parte de uma estratégia diferente, que é pressionar a retirada do Brexit face ao caos, e permitir o realinhamento da Inglaterra na UE saltando por cima do referendo. Notam-se hoje já as cautelas dos Brexiteers em não assumir compromissos, e nesse aspecto o "gambling" de Cameron e da UE ( se o é) está a ter sucesso.
Quanto a Portugal, há que voltar a pensar numa estratégia mais intensa de reenquadramento, veremos em breve que para nós a UE quando muito será parte da solução nacional, mas não é de todo a totalidade.

Rui Verde

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