O ministro da Defesa é homem de coragem?

Não me parece.
Para começar, se fosse, teria chamado ao seu gabinete o ex-chefe do Estado-Maior do Exército e o director do Colégio Militar com quem abordaria, no recato ministerial, o problema da alegada discriminação. 
Pela descrição, não me parece que se pudesse, em bom rigor, falar em discriminação mas, fosse como fosse, o encontro a três teria a vantagem de manter a polémica (pelo menos na sua fase inicial) no seio da instituição militar e de quem no Governo a tutela. E talvez a coisa se resolvesse.
Mas esse encontro poderia ser aspectos negativos. O ministro, que é civil (não deve ter prestado o serviço militar, o que não é uma necessidade para o cargo mas talvez o ajudasse), poderia ser confrontado por uma afirmação um pouco mais forte da parte dos dois militares. E iria fazer o quê? Sair do gabinete aos gritos de “Socorro!”? Nos jornais, afinal, está em terreno pelos vistos mais favorável, com os militares de certa forma obrigados ao silêncio.
Portanto, neste caso, fica pelo menos a dúvida.
Uma fotografia da agência Lusa, e assinada pelo profissional que a tirou, mostra o mesmo ministro da Defesa a passar revista a uma formatura militar… de camisa aberta e sem gravata. É moda, parece, usar fato completo sem gravata (mas um “blazer” ajudaria sempre a fazer melhor figura) e o ministro da Defesa deve ter achado que daria um ar da sua graça “de esquerda” indo para a parada nessa figura.
Só que parece ter sido recebido com o aprumo e a distinção com que devem apresentar-se os militares nessas situações. Mostraram, desse modo, respeito ao ministro. E este, sobranceiro, pagou-lhes com a deselegância de, pelo menos, não lhes corresponder. 
Poder-se-á dizer, sobretudo na tropa fandanga parlamentar que parece mandar no governo da nação, que desse modo mostrou ser um homem de coragem, ao dar aos militares algo que, à sua maneira, também é uma bofetada de luva branca.
Mas há um teste supremo para saber se o ministro da Defesa é um homem de coragem (em “linguagem de caserna”: se os tem no sítio) e esse ocorrerá no próximo dia 26 de Abril.
É nesse dia que o ministro vai explicar-se aos deputados.
E basta ver se ele vai de gravata ou de colarinho aberto. Se vai de colarinho aberto, desafiando as regras informais de conduta e os formalismos parlamentares, será realmente um homem de coragem e quase arriscaria dizer que ficará na História por ser o primeiro ministro a apresentar-se na Assembleia da República sem gravata.
E se levar gravata? Ficaremos esclarecidos. Ele mostrará que não os tem no sítio se não conseguir afrontar também os deputados. Cuja legitimidade, já agora, e apesar do lema de que “o voto é a arma do povo”, é bastante diferente da dos militares…

Pedro Garcia Rosado

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