Centeno de Harvard

À boa maneira americana temos sido bombardeados com a presença mediática de novo guru Centeno de Harvard, que surge a anunciar, naquele ar desajeitado que caracteriza muitos intelectuais, um novo período de pão e prosperidade.
Nada contra as promessas de Centeno de Harvard. Estas saem afinal de um Manual de Economia muito simples, aquele de Paul Samuelson, por onde gerações e gerações de economistas estudaram.
O que Centeno de Harvad propõe é aumentar o rendimento disponível das famílias e através disso estimular o consumo interno, que potenciará produto interno bruto através do efeito multiplicador (ver p. 445 e 481 da Economia, 18.ª edição, Paul Samuelson e William Nordhaus). O modelo do multiplicador faz parte dos instrumentos básicos da macroeconomia keynesiana.
Traduzindo esta teoria para Portugal, o que Centeno de Harvard espera é que o aumento do rendimento das famílias leve a mais consumo que faça crescer a economia e que este crescimento permita sustentar os gastos adicionais iniciais tidos para aumentar o rendimento.
Ora, estamos sobretudo perante um acto de fé.
Pode ser assim ou não ser assim, porque esse efeito multiplicador depende muito das expectativas e do funcionamento dos mercados. Se as pessoas tiverem expectativa que “as coisas vão melhorar” talvez gastem mais e estimulem a economia; se acharem que daqui a um ano ou dois tudo vai voltar ao mesmo, pode ser que poupem. Depende muito. Acresce que aparentemente os mercados vão ficar mais rígidos de novo, por isso, este estímulo pode ter efeitos perversos.
E a realidade é que a economia socrática se baseou muito neste tipo de estímulos internos à economia, e não resultou. A história económica recente demonstra que a economia portuguesa não reage a incrementos do rendimento das famílias da forma que se espera na teoria keynesiana. 
Os problemas económicos portugueses não são conjunturais e dependentes de uma adequada gestão macroeconómica. Vão mais longe e desde logo estão ligados ao Euro e ao presente enquadramento europeu.
Por tudo isto, a aposta simples de Centeno de Harvard é um completo tiro no escuro. Haja fé.
Rui Verde

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