Sentido de Estado ou sentido de estar?

Um canal de televisão mostra o Presidente da República a percorrer as barreiras da PSP que contêm manifestantes, a perguntar “Onde está o abaixo-assinado? Onde está o abaixo-assinado?” 
Depois de vários “’Tá bom?” e beijos (às manifestantes), o Presidente da República encontra o manifestante que tem o abaixo-assinado e que lho entrega, dizendo-lhe que o que está em causa são “as carreiras”, que desde 2010 não há aumentos, que deve interceder por eles junto do Governo.
“Eles” são os trabalhadores da Imprensa Nacional – Casa da Moeda (IM-CM) que, como toda a função pública, viu o governo do PS a cortar-lhes salários e a bloquear as “carreiras” um ano antes da bancarrota.
Um outro canal de televisão, pouco depois, mostra mais: o ministro das Finanças (que tutela a IN-CM) a escapulir-se apressadamente aos manifestantes e, depois, o Presidente da República a receber o abaixo-assinado e a dizer, aos jornalistas, que ia falar com o presidente (ou director) da IN-CM e que depois ia ler o abaixo-assinado e que depois falaria com o Governo. 
Houve, em tempos, uma coisa chamada “sentido de Estado”. E isso implicava que, por exemplo, o Presidente da República não intervinha nas matérias da competência do Governo e vice-versa, pelo menos publicamente. Ou que os membros do Governo não recebiam delegações de manifestantes quando estivessem a manifestar-se. E, ainda, que nenhum titular de um órgão de soberania deixava mal um seu colega.
Neste caso, vimos o Presidente da República a ir ao encontro do manifestantes depois de o ministro das Finanças nem lhes ter passado cartão, a oferecer-se para fazer de emissário e, finalmente, a sugerir (mais uma vez) que ia passar por cima de um ministro para falar com o chefe do serviço tutelado. 
Isto não é sentido de Estado. É, quando muito, sentido de estar. 

Pedro Garcia Rosado 



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