Ainda vamos ter saudades de Américo Thomaz?

O Presidente da República foi inaugurar uma instituição social e entregaram-lhe a chave com que abriria a porta inaugural. O Presidente enfiou a chave na fechadura e tentou rodá-la mas nada – a porta não se movia. Perante o embaraço da situação, e ao aperceber-se de qual o era o problema, um dos elementos da sua comitiva sussurrou-lhe: “É com os dentes para cima.” E o Presidente voltou a enfiar a chave na fechadura, virando a cara para cima, abrindo a boca e expondo bem os seus dentes.
Noutra ocasião, numa visita pelo interior, improvisou perante as personalidades locais, e começou: “Esta é a primeira vez que aqui venho desde que cá vim pela última vez.”
Terá sido por algumas destas e por muitas outras que constou sempre que a oposição ao regime largou uma vez no Rossio um porco vestido de almirante.
Os dois primeiros episódios foram, com razão ou sem ela, atribuídos ao último Presidente da República do Estado Novo, Américo Tomás/Thomaz (almirante, 1894 – 1998, oficialmente o apelido parece ser “Tomás” mas a imprensa, à época dava-o como “Thomaz”), que esteve em funções entre 1958 e 25 de Abril de 1974.
Desconhece-se o verdadeiro grau da sua influência política, depois de ter aparecido sempre num modesto segundo lugar relativamente ao primeiro-ministro (presidente do Conselho) Oliveira Salazar e de não ter conseguido evitar, nem limitar-lhe a actividade, a ascensão do último primeiro-ministro do Estado Novo, Marcelo Caetano.
Transformado, para sempre, no que parecia ser uma figura apagada, Américo Thomaz começou, a partir de certa altura, a tornar-se mais notado pelas infelicidades discursivas que se iam manifestando nas suas incursões pelo interior (a “província”, como se dizia). Não chegava ao absurdo dos discursos completamente tontos de um governador civil de Lisboa, Afonso Marchueta, mas não deixava de incorrer no gozo popular pelo que ia dizendo, sem cessar, por esse país fora. 
Américo Thomaz era, naturalmente, um homem do regime (o Estado Novo) e, no conjunto de figuras destacadas da “linha dura” e até por ser Presidente da República, não era das mais brandas. Ó ódio político que despertava entre as oposição ao Estado Novo tendia, naturalmente a exacerbar os disparates que lhe eram atribuídos e por isso as suas lastimáveis intervenções, que mesmo alguma imprensa parecia por vezes relutante em transmitir, tornavam-no ridículo. 
É possível, claro, que o seu afã de aparecer em todo o lado e em tudo não lhe tivesse facilitado uma reflexão sobre as várias vantagens que um silêncio bem gerido pode ter nem sobre a aplicação prática do “ou entra mosca ou sai asneira”.
De qualquer modo, as suas intervenções acabavam por tornar-se, por isso mesmo, hilariantes.
Ainda não é o caso do actual Presidente da República mas pode muito bem acontecer que nos deixe com saudades do “venerando” Thomaz que, pelo menos, nos fazia rir.

Pedro Garcia Rosado 

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