Políticos portugueses e refugiados sírios. Uma curta reflexão.

Algures no tempo, os dois líderes da nação (infelizmente demasiado destros no verbo) anunciaram com regozijo caloroso que Portugal ia, muito contente, receber 10.000 refugiados sírios. Entoaram-se loas à generosidade do povo português e desta dupla com coração, até por comparação com os dois anteriores líderes que eram fracos com o verbo, embora um deles fale demais e muito redondo, mas sem retórica.

A população portuguesa, pouco interessada em fazer o bem a outros quando se defronta com tantas dificuldades, não encarou com especial simpatia a vinda dos sírios. Isso viu-se no Facebook, sentiu-se nos cafés, nas ruas, nas conversas. Não era uma questão de xenofobia ou radicalismo. Era mais uma questão de estarem de fartos de problemas e não quererem os problemas dos outros sem os deles estarem resolvidos.

Lá vieram os sírios, dos 10.000, terão chegado poucos mais de 10...Desses 10, uns fugiram para a Noruega, outros fugiram da aldeia onde os colocaram...

Nunca mais se viu os verbosos líderes nacionais a falarem do assunto.

Mas eu falo. 

Falo porque conheço a situação de perto, e esta é vergonhosa. Portugal fingiu que recebeu os refugiados sírios. Aqui chegados, cedeu-lhes umas boas casas, e de restou mandou-os aos bancos alimentares e de roupa, deixando-os sem qualquer apoio.
Partilho (como agora se diz) uma história que acompanho impotente. Uma família síria, o marido com cerca de 30 anos, engenheiro electrotécnico, a mulher mais nova, culta e bonita, um filho de 2 anos, uma filha de 1 ano. Falam só árabe, ele arranha ligeiramente o inglês, ela tem umas noções muito básicas de francês. Querem-se integrar, querem trabalhar, procuram escola para os filhos. Ninguém lhes dá apoio, batem de porta em porta, só se deparam com burocracias e negativas. A organização que os devia apoiar não apoia. Quando outras organizações querem apoiar ou resolver problemas defrontam-se com paredes. Em concreto,telefona-se para a CML, a coordenadora está de férias.
Contacta-se  o centro de acolhimento aos refugiados da CML, mas dizem que não receberam nenhum casal de refugiados com filhos, pelo que não  sabem dar qualquer tipo de informação nem estão a articular com nenhuma entidade apoio ao nível de jardim infantil ou a questão das equivalências  universitárias.Os famosos refugiados sírios são deixados abandonados sem tutoria, sem acompanhamento pelo país fora. Acabam por se queixar. Queixar que as autoridades ou organizações não lhes ligam. Queixar-se que a economia portuguesa está parada e não conseguem fazer nada. Por isso, querem fugir para o Norte, por isso surgem conflitos.
A forma como o governo organizou a chegada dos refugiados sírios é desastrosa e convida ao conflito. Cria as raízes propícias ao confronto.

Portanto, pergunta-se, para quê colocar fotos nos jornais com crianças vítimas da guerra, e chorar hipocritamente por elas, quando em Portugal, à nossa frente, não se mexe "uma palha" pelos refugiados. É muito bom andar com discursos incendiários pela imprensa, culpar os americanos ou os russos, mas bem melhor era olhar para nós e fazer alguma coisa de útil.

A prática portuguesa com os refugiados sírios está a ser um falhanço e sobre isso deve-se reflectir e atalhar caminho.

Rui Verde

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