O porco com asas

Embora o bovino, especificamente a vaca, seja um animal sagrado em algumas religiões, o certo é que a figura tradicional portuguesa, quando se aplicam asa a um mamífero que não seja um anjo (nem um morcego), é a do porco.
Haverá decerto uma boa explicação social e até cultural. 
O porco, e atente-se logo no nome, é um animal rasteiro, mais próximo do solo do que uma vaca. É praticamente omnívoro, o que significa que come tudo, incluindo restos de alimentos humanos (e até os próprios humanos, segundo parece). Talvez por causa da sua posição mais rasteira, parece rastejar e o seu habitat não é o terreno limpo e mais ou menos verdejante dos bovinos mas o chão sujo. 
As pocilgas “naturais” não são modelos de limpeza como o poderão ser as industriais. A criação de porcos doméstica implica a permanência do animal numa mistura de lama e de excrementos. A limpeza do porco, neste caso, só se alcança depois da matança.
Considerado néscio, em termos de raciocínio, o porco já teve uma pequena presença na política portuguesa ou, pelo menos, no seu imaginário: consta que, antes do 25 de Abril, um grupo oposicionista largou no Rossio um porco vestido de almirante, em jeito de insulto ao então Presidente da República, que era almirante.
Considerando inteligente, o porco não consegue elevar-se acima das suas pequenas pernas. Terá algum raciocínio elementar mas não voa. As asas, a tê-las, teriam de ser poderosas e vigorosas, capaz de levantar o peso do seu corpo, que em nada é aerodinâmico.
É a mistura desta quase impossibilidade com a porcaria, em que é obrigado, a vegetar que faz do porco com asas e com capacidade de voar uma impossibilidade feita de ironia. Perigosa, claro: se se associa ao porco uma incontinência rectal (ou a descontração animal relativamente ao assunto), é mais alarmante a ideia de ter porcos a voar por cima de nós do que gaivotas, pombos ou outras aves que parecem ter um B52 no posterior.
Imagem absoluta da improbabilidade, o porco com asas e capaz de voar é também a representação ideal do que, por exemplo, se receia quando aplicado à vida política: que o bicho, capaz de se deslocar contra natura, se alcandore a locais cimeiros onde nunca poderíamos esperar ver um porco. 
Nem um bovino, claro.

Pedro Garcia Rosado

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