A encruzilhada portuguesa

Não tenho qualquer dúvida que a política económica e financeira seguida desde 2011 está errada, como não tenho qualquer dúvida que a adopção do Euro comportou um peso impossível na economia portuguesa. E também não tenho dúvida que a União Europeia é, como sempre foi, um projecto político entre a Alemanha e a França, apadrinhado pelos Estados Unidos. Tudo isto escrevi em Helicópteros com Dinheiro - Sair do Euro, da Crise e Mudar o Estado (2013). 
Mas sendo esta a realidade, a verdade é que Portugal está dentro da União Europeia, aderiu ao Euro e não quer sair e por consequência submetido ao eixo franco-alemão.
Vejo duas perspectivas para se encarar o tema. Uma é de adaptação. Portugal reconhece que desde 1974 perdeu o seu sentido pátrio como nação cosmopolita e diversa, não lhe restando tornar-se mais do que um cantão europeu dentro de um princípio de especialização interna, produzindo aquilo que melhor tem: trabalhadores eficientes para a Europa, trabalhadores baratos para o mercado interno, turismo,sol,praia e alguns serviços. Neste sentido, prossegue a política de Passos Coelho e espera ser recompensado pelo esforço, ficando com alguma margem de manobra. Talvez ( e a ideia é copiada de Pacheco Pereira) como um pequeno Vichy que astutamente obedece,mas engana, de vez em quando, os alemães. E assim com um registo meridiano integra-se como mais um membro da Grande Europa. Historicamente, nunca foi este o desígnio português, que aliás sempre que se meteu em aventuras europeias deu-se mal: Guerra da Sucessão Espanhola, Primeira Guerra Mundial, etc. Mas é uma opção, e talvez a mais segura. 
Existe outra opção, teórica, que é de iniciar um processo de reconstrução nacional que passa forçosamente por um afastamento da União Europeia e saída do Euro. Nesse cenário conviria um Brexit e a reformulação de uma área de comércio livre na Europa (eventualmente em parceria com o NAFTA) que permitisse estar e não estar. Portugal não se fechava ao mundo, mas retomava a condução da sua política económica e financeira, e simultaneamente re-lançava pontes para os ditos PALOPS, mas agora não na perspectiva de subserviência económica em que anda, mas também para ajudar a mudança em Angola e Moçambique, e integrando mais Cabo Verde, São Tomé e Guiné.
Uma alternativa é Passos Coelho e a sua germanofilia outra um desígnio Henriquino de refundação. Nenhuma das alternativas sérias passa pela atual governação que quer ser tudo e não é nada.

Rui Verde

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