Que tempo novo?

António Costa assumiu o governo anunciando um “virar de página da austeridade”, Marcelo Rebelo de Sousa, em três dias, transformou a Presidência da República num repositório de esperanças e dinamismo. Paulo Portas sai do CDS, a nova Doutora Cristas faz um discurso em que pede o afastamento do Governador do Banco de Portugal. Ricardo Salgado escreve um livro em que surge como vítima (ou melhor uma jornalista escreveu o ditado de Salgado). Sócrates anda calado. Passos Coelho parece um anacronismo. Faltará pouco tempo para começarem as conspiratas para o afastar por não estar sintonizado com o “novo tempo”.
Sim, Marcelo está a ter um desempenho de alto coturno, sim Costa mostrou-se um político muito hábil, até já obrigou um arrogante comissário Moscovici dos país dos mais de 400  queijos, a dar o dito por não dito.
Tudo está a mudar?
A única coisa que o governo de Passos Coelho conseguiu, e não foi pouco, em termos de economia e finanças, foi reabrir a porta dos mercados financeiros a Portugal. Pouco mais. No restante, as forças conservadoras da sociedade portuguesa bloquearam-no ou a sua política foi errada (mesmo estúpida): austeridade não é uma política, apenas o início de algo. Não um fim, mas um meio. Esse o grande erro. 
Contudo, havia a ideia concreta (embora traduzida de forma incipiente) que era necessário um “grande abanão”. Esse “grande abanão” foi começado por dois símbolos: o fim do Grupo BES e o processo Sócrates. Parecia com estes dois actos, que acima de tudo são actos políticos, que a mistela em que se transformara a política e economia portuguesas ia começar a ser modificada. Havia um caminho, que além do mais tinha o apoio da União Europeia (coisa não despicienda quando se está dentro da mesma).
Qualquer mudança em Portugal exige muita dureza, de liderança e por parte da população, e só pode vir de dois caminhos: ou o aprofundamento da aliança com o Euro e a Alemanha; ou a saída do Euro e a renegociação dos termos da permanência na EU. Acredito que Passos Coelho e os seus conselheiros perceberam isto e escolheram a primeira opção. Pessoalmente, escolheria a segunda. Mas a questão não é essa. A questão é que o caminho, aparentemente alegre, que agora se traça é o do caos, e da manutenção da mistela.
Costa quer sair da austeridade? Correcto, mas fazer o quê? Gastar mais dinheiro? Correcto. Como? Aumentando impostos. Esta é uma via? É, mas leva-nos a uma nova situação socrática. Marcelo quer que todos sejam amigos e ponderados. É bonito. Mas amigos e ponderados para fazer o quê? Qual o rumo? A resposta foi dada simbolicamente hoje pela Doutora Cristas: para afastar o Governador do Banco de Portugal. Esta medida é simbólica da contra-revolução. Ao afastar-se o Governador está-se a dizer que não vale a pena enfrentar a mistela. Embora de forma algo desastrada, o Governador foi o único que enfrentou Salgado. Contribuiu para “abanar”. Afastá-lo quer dizer que não vale a pena. Não vale a pena abanar o país. Afastar o Governador quer dizer que os “velhos negócios” têm que continuar depois deste interlúdio.
Está claramente em marcha uma encenação de retoma de poder pelo chamado “bloco central” de interesses, que vai manter Portugal no Euro, sem o reformar, aumentar os impostos, sem os pagar, fazer negócios obscuros sem obstáculos, manter o marasmo.
As ideias de “virar a página de austeridade”, “novos tempos”, “ diálogo” etc, são falácias para manter tudo na mesma, como dantes, antes da queda de Sócrates.
O tempo tem que ser de combate, tem que ser traçado um rumo. A questão em Portugal não é de simpatia, é de liderança.

Rui Verde


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