À borla (2)

Quando as propinas do ensino superior custavam 1200 escudos por ano (5,99€), a bandeira da “qualidade de ensino” não ia além das campanhas eleitorais das associações de estudantes. Mas quando o preço único das propinas passou para os 52 mil escudos (259.37€), os estudantes começaram a reivindicar a “qualidade de ensino”. À borla, o ensino podia ser mau. Mas pago é que já não.
Há algum tempo perguntei a uma pessoa convictamente de esquerda, militante do PCP e leitora evangélica do “Avante!”, que sempre se queixa das taxas moderadoras e cujos rendimentos não são muitos baixos, se estaria disposta a pagar taxas moderadoras mais elevadas, para ajudar a melhorar o SNS e servir melhor os que não têm dinheiro para frequentar consultas e outros serviços no sector privado (que essa pessoa pode fazer). Disse-me que não.
O governo anterior não quis, ou faltou-lhe a coragem para tanto, mexer nas taxas moderadoras e alterar a sua fundamentação (o que até se poderia compreender porque seria mais uma acha para a fogueira pré-insurrecional em que o País viveu em 2012 e em 2013). O mais longe que conseguiu ir foi na imposição de taxas moderadoras às mulheres que abortam (que o vão fazer porque assim o decidem) e no alargamento de algumas isenções, correcto  numa perspectiva genérica.
Há uma semana, o PS propôs na Assembleia da República (indo decerto ao encontro do que pensam o governo do mesmo partido e o BE e o PCP que o apoiam) que as famílias dos funcionários ferroviários passassem a viajar nos comboios à borla. Ou seja, em transportes públicos que, no seu conjunto, servem o País, e insuficientemente, e que todos nós pagamos. 
Politicamente, é isto: uma perspectiva utilitária do Estado em função de interesses sectoriais que se movem pelo dinheiro e pela acumulação de “regalias”.
É o que se passa na saúde e no SNS. Aliás, basta ver de onde emanam, politicamente, no caso do SNS, os grandes defensores da perversidade do sistema: a função pública, que (toda ela) dispõe de um serviço de saúde próprio com preços muito vantajosos (a ADSE). E como já se viu são esse eleitorado e mais o que pode ser considerado uma verdadeira aristocracia operária à escala portuguesa que estão nas boas graças do PS, do BE e do PCP e bem representados nas suas direcções e nos seus sindicatos. 
Por isso, que lhes interessam, verdadeiramente, os desaires dos outros quando se pode arvorar a borla como ideologia e pagá-la com o dinheiro alheio?


Pedro Garcia Rosado

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