Sócrates: o mar de lama

Ainda não percebi se Sócrates representa uma excepção, ou teve azar porque esticou demasiado a corda e foi descoberto, não tendo, contudo, feito diferente dos outros.
Se repararmos em tudo o que tem vindo a lume acerca do consulado de Sócrates, este foi um mar de lama, ou melhor, um mar de merda, em que ele se atolou e com ele o país inteiro.
Os factos são inúmeros:
-A falência do Estado Português e o recurso à "ditadura" da troika;
-O colapso do BCP;
-As negociatas do BES/GES;
-O colapso da PT;
-As negociatas da EDP;
-O encerramento da Universidade Independente;
-O Freeport;
-A manipulação dos principais cargos da justiça.
-A castração da TVI.
E muitos mais haverá por descobrir. 
Neste vórtice foram indelevelmente assassinados os caracteres de pessoas diferentes como Jorge Jardim Gonçalves, Filipe Pinhal, Manuela Moura Guedes,Fernando Lima, António Labisa,Rui Verde, e muitos outros, com ou sem razão.
Mas, a realidade é que Sócrates criou um mundo em que o primeiro desiderato foi o saque do Estado e a criação de uma rede de amigos em todas as áreas estratégicas que lhe teriam permitido governar numa ditadura quase-perfeita, não tivesse sido a crise financeira de 2011. Hoje viveríamos alegretes debaixo da ditadura socrática, que se aproximaria paulatinamente do modelo da ditadura angolana, em que alguns escolhidos teriam direito a todas as riquezas do país enquanto a maioria do povo viveria na miséria. Talvez não a absoluta miséria de Angola, mas a miséria relativa face à Europa. 
Teríamos umas eleições a fingir de tempos a tempos, mas seríamos dominados por Sócrates e seus amigos. 
Claramente, a crise deitou por terra estas possibilidades. 
Mas fica sempre um gosto amargo: como foi possível tomar conta do aparelho do Estado e das principais empresas e bancos do país quase sem resistência? Onde andavam os tribunais e o MP, agora tão atarefados? 
Há culpas claras de três pessoas na situação a que o país chegou com Sócrates: Noronha do Nascimento, então Presidente do Supremo Tribunal de Justiça; Fernando Pinto Monteiro, Procurador-Geral da República e Cândida Almeida, Directora do DCIAP. On their watch, o país foi levado ao abismo, criando-se, como agora alega o MP, uma rede de corrupção e tráfico de influências ao alto nível do Estado e das empresas, como nunca visto. Estavam todos a dormir? Ou foram cúmplices? 
E o Presidente da República Cavaco Silva  que agora escreve livros supostamente prescientes, o que fez na altura? Nada. 
Sócrates foi Sócrates porque deixámos. Sócrates criou o mar de lama porque deixámos.
Há uma dúvida tenebrosa: será que ninguém agiu porque Sócrates se limitou a seguir a prática habitual do poder político pós 25 de Abril? Entregar os fundos do Estado aos amigos e controlar a sociedade através de estímulos e sanções do Estado. Será que Sócrates é um mero exemplo da governação habitual de Portugal, que, por azar, foi desmascarado, ou representou realmente um momento único na história de Portugal. 
Esta é a questão dos nossos dias. Sócrates é a regra ou a excepção?

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