Pedrógão Grande: os nus e os mortos

Os incêndios florestais são uma rotina. Afectam todos os governos. As responsabilidades são públicas e privadas. São lá longe, no interior, mais ou menos esquecido. Tem sido sempre assim. Mas nunca com tantos mortos.
É isso, até, o que mais impressiona no caso de Pedrógão Grande. Além do facto de as mortes ocorridas (64, pelo menos, com todas as dúvidas que advêm da não identificação de corpos carbonizados e destroços por revolver) não terem sido, na sua maioria, em locais directamente afectados pelas chamas mas numa estrada pelo meio de árvores. Que se incendiaram. E para onde a GNR desviou o trânsito.
Uma semana depois não há resposta para todos os enigmas. Nada parece claro. Não se percebe como as autoridades civis, policiais e políticas não agiram, agiram mal ou descoordenadamente. Olha-se para os números e as suspeitas de encobrimento são mais do que muitas. Não se percebe como é que falharam os sistemas da “protecção civil”. Não se aceita, ao mesmo tempo, a leviandade, a demagogia e a irresponsabilidade dos dirigentes políticos do Estado e de um Presidente da República atraído simultaneamente por acidentes graves e câmaras de televisão. Tudo falhou. E os mortos, transportados num camião-frigorífico como se isto fosse um país do Terceiro Mundo, mostram-no bem.
Tudo isto pôs a nu a imensa hipocrisia oportunista da extrema-esquerda que temos: o BE e o PCP, em tempos tão loquazes em épocas de fogos, calam-se, escondem-se, fingem que não existem. Venderam-se por uma migalha de poder, venderam os seus, venderam a honra que ainda lhes restava. É um espanto como tantas boas almas ainda os seguem, em silêncio, como rebanhos. Fazem, à sua maneira, o percurso de uma “estrada da morte” política.
Das chamas, no entanto, renasceu uma fénix… embora talvez por pouco tempo. O jornalismo voltou à ribalta. Fizeram-se perguntas, relataram-se tragédias pequenas e grandes, mostraram-se as imagens necessariamente chocantes, deixaram-se verter algumas lágrimas, fizeram-se boas capas e primeiras páginas. Longe de Lisboa e do Porto, longe de directores, patrões e chefes, os jornalistas estiveram a fazer o que lhes competia, o que é difícil numa imprensa tão controlada.
De que é exemplo o “caso Sebastião Pereira”.
Sebastião Pereira é, segundo o jornal espanhol “El Mundo” (que publicou reportagens sobre o caso de Pedrógão Grande assinados por Sebastião Pereira), o pseudónimo de um jornalista português. Numa das suas matérias escreveu uma verdade óbvia: António Costa sai politicamente chamuscado das chamas de Pedrógão Grande. Foi o que bastou para que muita gente (com o inacreditável Sindicato dos Jornalistas português à cabeça) exigisse saber quem ele é. 
O pseudónimo até se pode justificar no plano profissional (o autor pode estar impedido de assinar com o seu nome noutros órgãos de comunicação social, por exemplo). Não é caso único. O que aqui é único é a fúria pidesca dos que se lançaram à caça do autor. Por simples motivos políticos: não gostaram dessa verdade óbvia. Nunca isto aconteceu desde o 25 de Abril.
A esquerda, esta esquerda que vai do PS ao PCP, passando pelo BE, só lida bem com a imprensa quando a controla, de modo “soft” ou “hard” e o “caso Sebastião Pereira” põe a nu a ameaças que pesam sobre a nossa democracia quando ela está capturada por gente deste calibre. 

Pedro Garcia Rosado

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