Como o politicamente correcto está a matar a democracia (2): o protofascismo

Há pouco tempo, tendo chegado à fila do supermercado com meia-dúzia de compras, fui interpelado pela empregada com um esforçado “Olhe, não se importa de dar prioridade?”. Ela apontou e eu vi a pessoa a que eu devia – por lei, já lá vamos – “dar prioridade”: uma jovem de vinte ou trinta anos com uma criança, que parecia ter talvez uns dois anos, num carrinho de bebé dos que parecem verdadeiros veículos de combate.
Cedi. A criatura, que eu já tinha visto a passear-se calmamente no supermercado, pagou as suas ou três compras, e passou. Sem olhar para mim, sem agradecer. Mas, talvez apanhada de surpresa, produziu um “Obrigada” contrariado quando eu a interpelei: “Ao menos, agradeça.”
A explicação de base para esta atitude está numa lei recente (Decreto-Lei n.º 58/2016, de 29 de Agosto), que define uma prioridade que é praticamente absoluta para todas as filas de espera. Abrange idosos, deficientes, grávidas e “‘Pessoa acompanhada de criança de colo’, aquela que se faça acompanhar de criança até aos dois anos de idade”: passa tudo à frente. Mesmo que a “criança de colo” venha tranquilamente instalada num carrinho que, para a pessoa que a traz, não exija mais do que o esforço de o empurrar.
A lei, como tantas vezes acontece quando se tenta legislar à pressão, é deficiente. Por que raio é que uma pessoa que empurra um carrinho com uma criança há de passar à frente dos outros? Está a ter de suportar o peso da criança?! 
Em termos racionais, esta lei deveria especificar a diferença entre transportar a criança em braços e transportá-la por meios mecânicos. Mas, como é apanágio da legislação portuguesa, isso iria dar origem a múltiplos diplomas que classificariam e certificariam os carrinhos de bebés e todos os seus acessórios. 
A democracia é caracterizada pela igualdade, em sentido mais lato ou mais restrito. Neste caso, cria-se uma elite de potenciais “deficientes” que precisam de uma lei para se imporem aos outros, num domínio onde seria suficiente usar critérios mínimos de boa educação e de cortesia social. E estas coisas, numa sociedade saudável, não precisam de decretos-leis.
Esta imposição do “politicamente correcto”, dando mais direitos a uns (por serem voluntária, temporária, contínua ou cirurgicamente) “diferentes” é um passo em direcção à fasciszação da nossa sociedade. 
Quando, na fila do supermercado, fui obrigado a ceder o lugar à mulher com a criança no carrinho, lembrei-me dos judeus ostracizados pelos arianos nazis: tinham sempre de ficar em segundo plano… se por acaso ainda estivessem vivos.

Pedro Garcia Rosado

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