O erro de Varoufakis e Portugal

O novo livro do antigo ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, Adults in the Room,é muito interessante de ser lido apesar do seu inglês torturado. As ideias de Varoufakis são claras, e saímos convencidos dos seus argumentos.
O que sobressai indelevelmente do livro é a importância, melhor, a completa predominância da Alemanha na União Europeia. Efectivamente, a força encontra-se toda na Alemanha e tal é reconhecido quer pelos Estados-Membros da UE, quer pelas outras potências mundiais, como a Rússia, a China ou os EUA. A UE é coisa alemã e não se deve lá intervir.
Também é claro que a Alemanha vê o Euro como o seu Marco, sendo este a base da sua prosperidade. Assim, a Alemanha não admite "brincadeiras" com o Euro e com a política económica que o possa prejudicar, do seu ponto de vista.Por isso, as tentativas francesas de aligeirar a pressão à Grécia foram debeladas, sem pejo em humilhar os dirigentes franceses, seja Moscovici, seja o actual Presidente francês Macron, e na altura, ministro da Economia.
A Europa do Euro vive uma "ordnung" alemã. Portanto, para se fazer parte do Euro há que obedecer à ortodoxia germânica.
Este foi o erro de Varoufakis. O ministro quis seguir uma política económica e financeira alternativa dentro do Euro. Não queria sair do Euro, mas queria mudar a política económica interna. Ora, para a Alemanha isso é impossível. Todos percebem que o Euro foi uma construção política e que assenta em bases muito movediças. Apenas, pensam os Alemães, uma estrutura muito rígida conseguirá manter o Euro a funcionar com sucesso. Caso contrário, entrará de crise em crise até à derrocada. Este era o perigo de Varoufakis, abalar a estrutura germânica que rodeia o Euro.
Dentro do Euro só se pode estar seguindo as regras alemãs. Quem quiser seguir outras regras, deverá sair.
Portanto, Varoufakis errou quando pensou que podia derrotar os alemães e ficar no Euro. A sua política devia ser: submissão ou saída do Euro. Tsipras, entretanto, percebeu isso e submeteu-se.
Em Portugal, a opção também foi clara e dura: submissão. Percebeu-se que a alternativa era a saída do Euro e não se quis arriscar. Assim, Passos Coelho submeteu-se de forma nua e crua. Costa ainda ensaiou umas valsas, mas rapidamente se submeteu. Entregou os bancos a quem a UE decidiu, aumentou o rendimento de uns, mas baixou o de outros, para tudo ficar na mesma. E prosseguiu risonho a política alemã,com umas exaltações de quando em vez.
Não se percebe o que vem aí. Macron, depois de eleito, foi a correr voar para Berlim, o mesmo que já Hollande havia feito, parecendo que perdeu a independência de pensamento.
O problema alemão já levou à possível saída da Grã-Bretanha da UE, que agora se encontra um pouco à deriva com uma líder titubeante. Mas não tenhamos dúvidas que o Brexit foi o primeiro confronto real entre a Alemanha e outra potência europeia face à subida exagerada do poderio alemão. E ao contrário do que os estrategas britânicos esperavam-que a Alemanha não se atreveria a ser dura com a GB, face aos eventos da II Guerra Mundial- o facto é que a Alemanha está a liderar a campanha anti-GB na UE com dureza.
É sabido também que o objectivo final alemão é colocar as finanças francesas na ordem. Há anos que os franceses vivem de dívida e acima das suas possibilidades, sem fazer um esforço de moderação. Este é o grande problema alemão. A atitude com a Grécia foi acima de tudo um aviso para Paris. E por isso Paris, falava grosso entre-portas, mas metia "o rabinho entre as pernas", não se atrevendo efectivamente a confrontar a Alemanha.
Eis-nos, de novo, no meio de uma luta pela supremacia na Europa...

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