Sondagens, função pública, compra de votos e má memória

O jornal “Expresso” e a empresa Eurosondagem têm sido, nos últimos meses, os únicos protagonistas de sondagens políticas que visam a posição eleitoral, ou pré-eleitoral, dos principais partidos e muito, ainda, em função das eleições legislativas de 2015.
São, por um lado, as eleições mais recentes e são, por outro, as que deram origem à bizarra aliança governativa dos partidos derrotados contra os dois partidos que, organizados em coligação, venceram as eleições.
A tendência registada tem sido constante: o PS vai subindo nas intenções de voto e o PSD vai descendo. São resultados que até podem ser genuínos (embora falta a prova de outras) e que, obviamente, alimentam expectativas de uma maioria absoluta do PS e o desespero dos adversários externos e internos do presidente do partido que efectivamente ganhou as eleições de 2015.
Estas sondagens representam, em termos de intenção de voto, uma reviravolta: derrotado nas urnas quando era partido de oposição, o PS parece beneficiar do facto de ser governo. 
E embora os resultados não forneçam dados de carácter profissional, social e económico relativos aos inquiridos, não é de arriscar que eles expressam, em muito, a opinião de pessoas ligadas directa ou indirectamente à administração pública e de reformados e pensionistas. E por uma razão muito simples: os trabalhadores da função pública e os pensionistas têm sido os grandes beneficiados da governação do PS e dos seus aliados da “esquerda”, com a sua política de aumentos salariais reais para estes sectores que, ao longo de mais de um ano, já se traduziu em ganhos muito significativos.
Não houve outros sectores profissionais e sociais (à excepção, talvez, dos patrões da restauração à conta da borla do IVA) tão beneficiados pelo Governo e o aumento do salário mínimo nacional tem efeitos parcelares. E os impostos indirectos, pelo modo como estão a ser aplicados, podem diluir-se um pouco entre os “privilegiados” da função pública, servindo essencialmente para sustentar estes últimos.
É uma lógica de compra de votos com uma vertente sinistra. É importante recordar que foi o Estado, o patrão da função pública, que esteve à beira da falência em 2011. E que, por isso, foram reduzidos, ainda mais, os salários da função pública que, aliás, tinham sido simultaneamente aumentados em 2010 (pelo último governo de J. Sócrates) e diminuídos a partir de 2011.
Ou seja: o Estado tinha gente a mais e recursos a menos para pagar ao seu pessoal. E ainda tem, e crescentemente. 
A situação tem estado a agravar-se e uma nova catástrofe económica e financeira não poderá deixar de se repercutir outra vez na imensa massa salarial da função pública ou, então, num esbulho incomensuravelmente maior dos trabalhadores do sector privado.
O Estado, tal como existe, não é auto-sustentável. Era conveniente que os seus próprios empregados não se esquecessem desse pormenor.

Pedro Garcia Rosado

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