O fim do jornalismo português (5)

O que é se soube antes, em processos de tanta complexidade e tão grande impacto público como os que envolvem (e têm por arguidos) o ex-primeiro-ministro José Sócrates e o antigo banqueiro Ricardo Salgado?
Do segundo praticamente nada. Do primeiro houve o “caso Freeport” e o “caso da licenciatura”. No “caso Freeport” poucos foram os órgãos de comunicação social que se lhe referiram, o visado disse que era uma “campanha negra” e os amigos silenciaram os que pugnavam pela investigação jornalística. O “caso da licenciatura”, recorde-se, foi exaustivamente tratado por um bloguista e a imprensa só tarde entrou em cena, e de forma timorata. Depois, os luxos do ex-primeiro-ministro quase só mereceram a atenção do “Correio da Manhã”.
A prisão preventiva do ex-primeiro-ministro e o desenrolar natural do processo levou a uma catadupa de informações que permitiram reconstituir uma situação, ou um conjunto delas, todas por sinal bastante duvidosas em termos legais. Mas o que veio a público deveu-se à fuga de elementos constantes do processo e ao conhecimento de outras diligências (com quebra do segredo de justiça) e muito pouco à investigação jornalística. Ou seja: os jornalistas não pesquisaram, inquiriram, reflectiram ou quiseram saber mais. Na maior parte dos casos publicaram o que receberam, e que lhes foi proposto ou que pediram. 
A investigação jornalística já existiu em Portugal. Os jornalistas investigaram “casos” políticos, económicos, financeiros, legais… tudo. Ou quase tudo, porque as vidas privadas das figuras públicas ficaram sempre demasiado resguardadas, mesmo quando eram pertinentes para a expliação de alguns “casos”. Houve excessos, favores, prosmicuidades, mas também houve coragem, espírito de iniciativa, discernimento e conhecimento aprofundado das peculiaridades do jornalismo.
Hoje, a investigação jornalística desapareceu. As empresas de comunicação social não querem correr riscos, por causa das ligações em rede. Os jornalistas também não. Não há dinheiro, não há recursos, não há, verdadeiramente, liberdade de movimentos e de iniciativa.
A investigação jornalística até era a bandeira dos jornalistas que, em tempos, viram na sua profissão um múnus justiceiro e uma possibilidade de endireitar o mundo. E para os jornais eram, por via das vendas, um aumento de receitas.
Hoje, o que fica dos jornais quando a investigação jornalística desaparece? Uma espécie de boletins…

Pedro Garcia Rosado

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