Porque é que Costa e o seu PS ainda continuam a precisar de eleições antecipadas?

Defendi aqui que o actual chefe do Governo e secretário-geral do PS precisa, tal como o seu partido, de eleições legislativas antecipadas. A vitória eleitoral nas eleições autárquicas (39 por cento, cerca de 6 pontos mais do que a vitória “poucochinha” do anterior secretário-geral do PS, António José Seguro) não afastou essa necessidade.
E eis porquê.

1

Houve quem dissesse que estas eleições eram a “desforra” nas urnas da derrota do PS nas eleições legislativas de há dois anos. Não são.
O resultado destas eleições fez-se de resultados locais. E foi obtido com uma distribuição copiosa de aumentos salariais na função pública e nos reformados e pensionistas (até pouco menos de dois meses das eleições), em dinheiro bem sonante no final do mês mas também com promessas abundantes de ganhos futuros.
O consumo interno e o crédito aumentaram, em resultado do aumento do poder de compra. Mas esta política de distribuição de benefícios à função pública vai durar para sempre? 
O PS (o único partido da tríade governativa a colher os louros da compra de votos) tem de ir a eleições sem essa almofada. De outro modo, está a partir de uma vantagem ilegítima, garantida pelo domínio do Estado.


2


O BE não teve, nestas eleições (locais, repete-se), melhores resultados do que em 2015. Foi como se não tivesse investido na solução de governo actual. E, tendo investido, perdeu parte do seu capital. O que vai acontecer nas eleições legislativas de 2019? Até que ponto é que o BE vai querer continuar amarrado ao PS?
O PCP teve uma derrota eleitoral assinalável. Se, por via dos sindicatos e da agitação, conseguiu ganhos para o que pensava ser o seu eleitorado, os louros desses benefícios foram para o PS. Vale a pena ao PCP continuar a apoiar um governo que, em termos práticos, de pouco lhe serve, e até acaba por lhe ser prejudicial?
Ou seja: o BE e o PCP vão continuar comprometidos com o PS, que até pode vir a ganhar uma maioria absoluta, por mais dois anos?
A situação deixou de ser segura para o PS e para o seu secretário-geral e chefe do Governo.

3

O PS só tira pleno partido do Governo e do Estado quando tem maioria absoluta ou quando, como neste caso (e com um comprometimento do BE e do PCP com coisas noutras circunstâncias não “engoliriam”), pode usar a administração pública para se financiar, distribuir lugares aos seus e satisfazer os amigos.
Se esta solução falhar, o que fará?

4

Talvez por um certo complexo de inferioridade (com uma boa dúzia de razões, infelizmente naturais em pessoas fracas e inseguras de si), António Costa abomina Pedro Passos Coelho. E, apesar de tudo, não se pode dizer ainda (hoje) que estas eleições tenham afastado o presidente do PSD da vida política portuguesa.
A humilhação de Outubro de 2015 ainda pesa ao actual chefe do Governo. Se, por hipótese, Pedro Passos Coelho continuar à frente do PSD por mais dois anos, a recordação da humilhação persistirá. Além disso, quem sabe se o PSD não conseguirá recuperar em dois anos e, seja lá como for e com um dirigente pouco amigo da lógica do “bloco central”, ameaçar em definitivo o PS?
Eleições antecipadas resolveriam este problema.

5

O PS aparece demasiado dependente do Presidente da República que, às vezes, até parece ser o primeiro-ministro do primeiro-ministro. Também é certo que, por outro lado, é muitas o PR que parece demasiado dependente deste Governo e do PS, como se alguma coisa houvesse que o fizesse refém do PS.
A legitimidade democrática que fosse eventualmente ganha nas urnas nacionais esolveria o problema e evitaria, caso o PS ganhasse (como o indicam as sondagens, de uma ou duas empresas, que têm sido publicadas), que um dia o PR, por hipótese, lhe atirasse à cara que ele, o PR, ganhou as eleições nas urnas e que o PS só ganhou o Governo nas secretarias parlamentares.

6

Finalmente, e supondo que o PSD até poderia ganhar entretanto um novo líder mais aberto (mesmo que subalternizado) a um entendimento com o PS, eleições antecipadas permitiriam ao PS libertar-se do BE e do PCP (que em certas matérias terão sempre posições antagónicas relativamente ao PS “normal”). E permitiriam também garantir um apoio complacente e a formação de um governo PS e PSD. Ou seja, do “bloco central”.
O PS que não é da extrema-esquerda, António Costa em alguns dias da semana e o actual Presidente da República adorariam que isso acontecesse. Dava-lhes jeito e aos seus amigos.
E não é, portanto, por aqui que passa o ódio, recalcado e frustrado, de António Costa a Pedro Passos Coelho?

Pedro Garcia Rosado

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