A queda do Muro de Berlim, em 1989, foi um trauma. Nenhum comunista escapou ileso à fuga em massa dos alemães da ex-República Democrática Alemã do seu país e dos muitos outros que se lhes juntaram: então já não queriam lá estar?! Uns terão regressado, outros não, os regime do “socialismo real” foram caindo como pedras de dominó e o que hoje resta é uma Rússia com alguns Estados agregados, que tem mais a ver com a Rússia czarista do que com o centro da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Em Portugal, alguns comunistas foram-se afastando do PCP. Outros ficaram. O discurso da direcção do PCP foi unânime: era tudo uma fabricação, fazia tudo parte de uma “campanha”. Só lhes faltou dizer que o Muro de Berlim não tinha caído e que as imagens da fuga do Leste eram uma invenção. Os comunistas que ficaram no partido aceitaram a ideia. Sentiram-se, decerto, mais confiantes: ainda era possível acreditar na Terra Prometida. O que fazia as normas da fé era o “Avante!”. E...
Aquilo que em termos políticos se chama “esquerda” tem-lhe associados certos princípios, que até podem ser considerados fundadores, como a luta pela justiça e pela igualdade, a recusa dos privilégios que ponham em causa os benefícios da população em geral, o controlo dos favores feitos pelos políticos aos interesses económicos e, numa perspectiva mais abrangente e mais recente e, de forma mais abrangente, o respeito pela democracia. Não seria de esperar que, por exemplo, a esquerda, organizada ou não em partidos, aceitasse (e impulsionasse, até) acontecimentos como uma mitigada melhoria salarial da função pública à custa do sector privado e uma verdadeira isenção fiscal para um sector comercial, que nem sequer tem o alibi da cultura, e deixasse passar em branco a promiscuidade suspeita entre uma das maiores empresas nacionais e meia-dúzia de governantes nacionais e locais, uma vaga de despedimentos no banco do Estado e ainda impedisse o debate destes e outros temas na Assembleia da ...
F.L., professor, poeta e tradutor, está a traduzir uma nova versão da Bíblia. É um facto cultural relevante embora, para todos os efeitos, nada vença a Bíblia dos Capuchinhos, de consulta fácil e à distância de meia-dúzia de cliques. O jornal “Expresso”, talvez para variar da recente moda jornalística de entrevistar actores, actrizes e apresentadores e apresentadoras (não é assim que se deve escrever?), resolveu entrevistá-lo. E na capa da sua revista apresenta assim o entrevistado: “(…) Um dos mais brilhantes intelectuais portugueses, homossexual assumido e autor da primeira tradução da Bíblia a partir do grego. Uma questão de fé.” Não se percebe bem a eventual relevância da última frase sobre a fé mas, aqui, o que interessa é a relevância da sexualidade do entrevistado. “Homossexual assumido” é aqui, pela ordem de construção do textículo da capa, mais importante até do que a tradução do grego. Mas, quando se penetra no texto da entrevista, a dúvida adensa-se. São 69 as pe...
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