Mensagens

O fim do jornalismo português(2)

Numa zona central da cidade de Caldas da Rainha, capital do concelho com a mesma designação onde moro, existe uma loja que é um misto de papelaria/tabacaria/livraria, de escolhas criteriosas e pessoas simpáticas. É aí que compro regularmente algumas revistas (cinema, inglesas, e de vinhos, portuguesas) e os jornais ao sábado.  As publicações estão bem arrumadas e há uma particularidade significativa: os jornais (diários e semanários) estão num canto dispostos num escaparate à altura do tornoze e quem quiser ver-lhes as primeiras páginas tem de curvar-se. Ao contrário, as revistas “sociais” e de televisão (também “sociais”) estão na linha de visão de uma pessoa de estatura média, mesmo à direita da caixa e no que pode ser considerada a zona nobre da loja. Numa banca de rua, a poucos metros, onde o espaço está mais condicionado, os jornais do dia nem se vêem a um primeiro relance. Mas as revistas, “sociais” e outras, lá estão, bem à vista. O computador pessoal que uso, com o sistema operati…

O fim do jornalismo português (1)

Acredita, leitor, que o jornalismo e os jornais têm futuro, em Portugal? Se sim, peço-lhe que se dedique a um pequeno exercício, comodamente, no seu computador, hoje, amanhã, talvez durante dois ou três dias. Vá ao site Sapo24 (http://24.sapo.pt/jornais). Encontrará aí as primeiras páginas dos jornais diários (e semanários) portugueses, dito generalistas, com uma actualização diária (normalmente mesmo ao princípio da manhã). Esta exposição diária dos cinco matutinos que se publicam em Portugal (as que se juntam os semanários e as revistas também generalistas nos seus dias de saída) funciona como uma banca de jornais. Acredito que já poucas devam existir e acredito ainda mais que, onde existem, o que predomina são as revistas.  Mas era assim em Lisboa, com os jornais bem à vista. As televisões talvez desenvolvessem algumas das notícias das primeiras páginas e as rádios também. Quem queria saber mais, comprava o jornal, ou jornais. Nunca foram caros, verdadeiramente. Vá ao Sapo24, leitor. …

Os patos na Justiça

Anuncia-se com a alegria dos pacóvios um pacto da justiça, saído de uma tal Cimeira da Justiça, realizada em Tróia, e assinado pelos vários sectores da Justiça (magistrados, advogados, juízes, funcionários judiciais). Não se sabe se os partidos políticos deram, ou vão dar, cobertura consensual a tal pacto, mas imagina-se que sim. Há que dizer claramente: há que ser contra pactos de Justiça que colocam todos de acordo. A Justiça é por definição adversarial. Os vários actores têm que ter perspectivas diferentes. Se todos estão de acordo, algo de preocupante se passa. É evidente que a Justiça portuguesa tem dois problemas essenciais: o da celeridade e o da executabilidade. Mas esses problemas têm uma solução muito simples, o reforço efectivo e nova gestão da Justiça e a simplificação legislativa. Ambas estão nas mãos do poder legislativo e executivo e da maioria que os sustenta, seja hoje, seja ontem, seja amanhã. Contudo, esses mesmos problemas não precisam de qualquer pacto, até porqu…

A subserviência portuguesa: União Europeia e Angola

A política externa portuguesa do "Orgulhosamente sós" foi muito criticada a seguir ao 25 de Abril de 1974 por ter isolado o país e conduzido à débacle colonial. Por isso, após a revolução de Abril, Portugal tem-se destacado por querer estar sempre acompanhado. O exemplo típico de tal postura foi a adesão à então CEE, hoje União Europeia, e o comportamento de "bom aluno" que sempre adoptou, procurando cumprir com os desígnios europeus e obedecendo cegamente às instruções das potências europeias.  O exemplo mais recente de tal subserviência estrutural à União Europeia veio do tempo da troika, quando o Governo português se tornou num verdadeiro colaboracionista germânico. Poder-se-á dizer que valeu a pena. Portugal não foi a Grécia. Saiu da crise, recuperou a economia, e hoje o seu ministro das Finanças é o chefe dos executores da política económica-financeira europeia. Digamos que o "preso" ficou com a chave da "prisão". Que melhor recompensa hav…

Quem tramou Joana Marques Vidal? Sócrates ou Manuel Vicente?

A ministra da Justiça anunciou que na sua interpretação o mandato do Procurador-Geral da República é "longo e único", querendo com isto dizer que não vai reconduzir Joana Marques Vidal no cargo.
Esta interpretação de um mandato "longo e único" não é contra a Constituição,mas também não consta dela.
A Constituição define no seu artigo 220.º, n.º 3 que " O mandato do Procurador-Geral da República tem a duração de seis anos, sem prejuízo do disposto na alínea m) do artigo 133.º".  Basta ler para se ver que em lado algum se entende que o mandato é único, nem é qualificado como longo. 
Atente-se por exemplo, ao caso dos juízes do Tribunal Constitucional, em que a norma fundamental determina no seu artigo 222.º, n.º 3 que "O mandato dos juízes do Tribunal Constitucional tem a duração de nove anos e não é renovável." Aqui sim, temos um mandato "longo e único". A contrario, sempre se dirá que o mandato do PGR não é "longo, nem único"…

O mistério de Luís Delgado e da Impresa

Há dias, discretamente como convém, o grupo de Balsemão, chamado Impresa, anunciou a venda das suas revistas a Luís Delgado, pela quantia aproximada de 10 milhões de euros. As revistas vendidas são a Activa, Caras, Caras Decoração, Courrier Internacional, Exame, Exame Informática, Jornal de Letras, TeleNovelas, TV Mais, Visão História e Visão Junior.  O comprador é um empresa unipessoal de Luís Delgado chamada Trust in News, Unipessoal, Lda .
O que espanta aqui é que Luís Delgado é um jornalista e comentador e não um homem de negócios. Onde vai um jornalista arranjar 10 milhões de euros?~
Se formos reparar a Trust in News é um empresa criada em 15 de Dezembro de 2017. Antes não existia. O seu capital é de 10.000,00 (dez mil euros). Portanto, é uma concha vazia usada por Delgado para comprar as revistas de Impresa. Se a empresa é inexistente, o que dizer de Luís Delgado?
Na imprensa, Jornal de Negócios, Luís Delgado é descrito da seguinte forma:
"Luís Delgado já desempenhou vário…

Tomate renovado

O Tomate entra 2018 renovado. Mantém alguns membros da antiga redacção e acrescenta outros. 
O combate vai prosseguir. A liberdade, a felicidade e o progresso estão debaixo de ameaça e de sufoco.
Portugal não encontra o seu rumo. Volta a viver uma época de fingimento e abafamento. 
Pensava-se que os casos Sócrates e Ricardo Salgado tinham alertado o país e a população para a fragilidade do Estado de Direito, para a necessidade de a vida pública ser objecto de um escrutínio apurado e de reforçada transparência, rigor e exigência. No fim de contas, nada disto aconteceu. Todos querem papas e descanso, e entregaram o país a um caldo corporativo que lembra o pior do Estado Novo. Temos um Presidente da República que disfarça a vacuidade e opacidade do regime em afectos. As emoções tomaram conta da racionalidade política, para disfarçarem a sua inexistência. Quanto ao governo, vai sobrevivendo graças aos ventos que sopram para lá dos Pirinéus, mas não faz, aguenta-se, paulatinamente vai dei…