Mensagens

Aconteceu!

Aconteceu! Assim reagiu João Salgueiro às notícias sobre o crescimento português nos últimos tempos, afirmando que não se havia feito nada para tal resultado. Na realidade, é bom quando a economia funciona sem o Estado, é sinal que milhões de pessoas tomam as suas decisões e movem-se sem estar à espera do Governo. Nesse sentido, a perplexidade de Salgueiro seria uma tradução das virtudes da economia livre: o governo não fez nada, mas a economia mexeu-se. É assim mesmo! Contudo, não é o caso. Devem existir muitas explicações para os números do crescimento recente português, mas nenhuma assenta numa visão de uma economia com fundamentos sólidos e a arrancar para um período de crescimento sustentado. Nada, mas nada de nada, foi feito para criar um quadro macroeconómico favorável ao investimento, à produtividade e à competitividade em Portugal, símbolos reais de qualquer crescimento.  Vivemos uma bolha de ilusão, trazida pelos mesmos arautos do socratismo, agora transformados em costistas do…

O erro de Varoufakis e Portugal

O novo livro do antigo ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, Adults in the Room,é muito interessante de ser lido apesar do seu inglês torturado. As ideias de Varoufakis são claras, e saímos convencidos dos seus argumentos. O que sobressai indelevelmente do livro é a importância, melhor, a completa predominância da Alemanha na União Europeia. Efectivamente, a força encontra-se toda na Alemanha e tal é reconhecido quer pelos Estados-Membros da UE, quer pelas outras potências mundiais, como a Rússia, a China ou os EUA. A UE é coisa alemã e não se deve lá intervir. Também é claro que a Alemanha vê o Euro como o seu Marco, sendo este a base da sua prosperidade. Assim, a Alemanha não admite "brincadeiras" com o Euro e com a política económica que o possa prejudicar, do seu ponto de vista.Por isso, as tentativas francesas de aligeirar a pressão à Grécia foram debeladas, sem pejo em humilhar os dirigentes franceses, seja Moscovici, seja o actual Presidente francês Macron,…

Só aplaudo a Eurovisão

Os últimos dias foram de geral histeria colectiva: o Papa, o Benfica, a Eurovisão e o crescimento económico. Só aplaudo a Eurovisão. Finalmente, depois de inúmeras humilhações, ganhámos. E ganhámos bem, com uma música bonita. A visita do Papa foi uma visita envergonhada (sabe-se lá porquê) que nem um dia demorou. Não se consegue perceber porque razão o Papa foi tão parcimonioso no tempo que dispensou a Portugal. Haverá algum conflito entre ele e a nossa igreja comercial e conservadora? Estas visitas papais que não trazem mensagem de fundo, que não criam qualquer coisa, ou transformam qualquer realidade, assemelham-se a visitas de estrelas de rock. Vêm, dão o concerto e vão-se embora. No fim só fica o lixo da assistência. Deste Papa evangélico esperava-se mais, muito mais. Quanto ao Benfica é bom (sou do Benfica), mas o futebol ocupa demasiado espaço na esfera pública. Nada justifica o exagero comemorativo.  Finalmente, o crescimento económico. Sou daqueles que sempre criticou a política d…

Como o neojornalismo está a matar o jornalismo português

A última vez que me lembro de ver o que corresponde ao conceito de investigação jornalística foi há meses, no “Expresso”, sobre empresas “off shore” e lavagem de dinheiro. Mas a investigação parou de repente, depois de duas ou três referências a uma lista de “políticos” e “jornalistas” que seriam avençados do Grupo Espírito Santo. Não foi tornada pública, por motivos que, no exercício da liberdade de imprensa, soam a pouco sinceros. A investigação jornalística desapareceu da imprensa portuguesa. Os “casos” na esfera política, policial e/ou financeira resumem-se aos que já estão a ser investigados pelas autoridades policiais. Mas não foi só a investigação jornalística que desapareceu. A iniciativa também desapareceu. Hoje, salvo incursões por domínios sociais de maior ou menor relevância, a reportagem foi de férias. O desaparecimento da especialização matou a capacidade de iniciativa. Os apertos financeiros também. E o compromisso político a mesma coisa. O grupo empresarial e de comunicaç…

O Papa em Fátima. O triunfo da hipocrisia.

Qualquer católico que acredite no Evangelho e na primeira mensagem de Cristo: Deus é Amor, só pode ficar estupefacto com esta vinda do Papa a Fátima e do festival que a rodeia. Fátima e Nossa Senhora já tiveram visitas suficientes de Papas. Não lhes sentirão a falta. Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI. Todos os Papas recentes, com a excepção do malogrado João Paulo I (que nem teve tempo para isso) vieram a Fátima. Mas tem que ficar a pergunta: o que isso adiantou para a Igreja e a comunidade portuguesa? Tudo se assemelha a um grande negócio e uma mão-cheia de cerimónias pomposas. Mais importante ( e este Papa tem sensibilidade para isso, quem não tem é a acomodada e conservadora Igreja portuguesa) era que o Papa se dedicasse ao sofrimento dos sem-abrigo em Portugal, ao exagero dos presos nas cadeias, à discriminação dos africanos e a muitas mais pechas sociais e económicas que afectam o país visitado por Nossa Senhora. Dirão que o Papa não pode resolver esses problemas. Pois não. Mas pod…

Anestesia Colectiva

O mundo está aos trambolhões. Desde o Brexit, a Trump, ao Lava-Jato, à transição em Angola, às eleições francesas, os paradigmas a que nos habituámos estão em mudança. No entanto, olhamos para Portugal e a discussão é à volta do Benfica, do Sporting e das vacinas (esta última discussão até é importante e devia alertar para os perigos das amizades em demasia com a natureza: o comunismo vermelho fanático do século XX, tornou-se no ambientalismo verde fanático do século XXI..., mas esta é outra questão para discussão noutra altura). Contudo, Portugal é um país sem destino. Tem uma justiça que nem numa caricatura pode ser espelhada, uma economia que agoniza (apesar de estatísticas "positivas" que se sucedem, mas só devem alegrar alguns funcionários partidários que sempre tiveram emprego). Sobretudo, o país vive uma espécie de "vingança de Sócrates". Aqueles que apoiaram o desvario socrático estão de volta (mesmo já não se atrevendo a defender Sócrates) malham em Passos C…

O "milagre" português: mendigos e turistas

Portugal vive duas realidades. Uma descrita na imprensa, pelos comentadores e sibaritas afins. Um país em que tudo vai no melhor dos mundos e melhor estará daqui a uns meses.  Depois, há o país de quem anda nas ruas. Uma das coisas mais impressionantes é a quantidade de mendigos. Estão por todo o lado, surgem por todo o lado. E não são aqueles romenos, que justa ou injustamente, são acusados de pertencer a redes organizadas. Parecem ser pessoas sem pão e sem solo. E este é um facto, o número de mendigos aumentou e muito em Portugal.Quem se preocupa com eles? O Presidente da República parece que sim. Esperemos que não seja como a história do cão que só serviu para umas capas de jornal... Além dos mendigos, os desempregados que conhecia, continuam desempregados, os empresários que conheço continuam sem perspectivas de melhorias e desanimados. Por isso, não percebo onde está o crescimento? O metro tem as escadas rolantes avariadas. Os comboios para o Porto cheiram mal e estão enferrujados.…