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Oportunismo (de direita)

A participação indirecta do BE e do PCP no actual governo do PS é, desde o primeiro momento, estranha.  Não se vêem, ao cabo de seis meses desta experiência política, resultados que possam ir no sentido do que, pelo menos teoricamente, defendem aqueles dois partidos.  Não se percebe como é que se pode dizer que acabou a austeridade quando as restrições económicas atingem a maioria da população, a começar pelo brutal aumento do imposto sobre os produtos petrolíferos. E nem se pode dizer que a função pública também se viu livre da austeridade porque os seus salários não melhoraram substancialmente. Ao contrário do que este fim de semana e hoje, segunda-feira, disseram os dirigentes dos dois partidos (numa espécie de competição ciumenta), o apoio do BE e do PCP ao PS serviu para uma única coisa: pôr os dois partidos no “arco da governação”, o que se torna especialmente aliciante para o BE e embaraçoso para o PCP.  O BE e os seus dirigentes e quadros querem sentar-se “à mesa do orçamento” e u…

Brexit: as dúvidas

O Brexit não pode ter sido uma surpresa. Desde os tempos de Margareth Thatcher que existia um profundo desconforto em Inglaterra com a permanência na União Europeia.Thatcher foi-se tornando euro-céptica. O partido Conservador viveu eternamente dividido. Já lá vão 20 anos. Os trabalhistas também tinham as suas dúvidas. Blair foi impedido de aderir ao Euro pelo seu chanceler Gordon Brown. E bastava ler os jornais mais populares ingleses, e muita da produção académica inglesa para se perceber que havia uma real cepticismo face à forma que a U.E. estava a tomar. Nessa medida,não existe qualquer crítica a fazer a Cameron por ter convocado o referendo.Era seu dever devolver a palavra ao povo. Sabe-se que os fundadores da CEE sempre tiveram medo que a ideia não fosse bem aceite pelo povo, sobretudo depois do fiasco da criação da Comunidade Europeia de Defesa em França nos anos 50, e por isso procuraram fazer uma construção paulatina em temas em que não fosse chamada a atenção das populações. O…

Brincar ao Bloco de Esquerda

Primeiro, o elogio. O Bloco de Esquerda é o único partido português que tem uma posição clara, frontal e corajosa face a Angola e aos 15+2. Por isso, as suas posições têm que ser levadas a sério. E é sobre a seriedade dessas posições que começam a surgir fissuras na pureza e coerência deste grupo. Uma posição de que foi feito amplo eco durante o recente Congresso foi a defesa da saída do Euro. Francisco Louçã disse: “o euro não tem salvação”; “Sim, o euro é destruidor de Portugal”; “Quanto mais no agarrarmos a essa âncora que nos arrasta para o fundo, mais impossível se torna salvar o sistema bancário, garantir a confiança dos depósitos ou ter uma estrutura política em que possamos decidir sobre o orçamento. Portanto é uma situação de humilhação nacional e de destruição política.” José Manuel Pureza afirmou: "“Votaria sim para Portugal sair do euro”. Até se concordo com estas posições. Contudo, não se percebe como um partido que as defende, apoia um governo cujo principal objectivo é…

Praise

Não é normal um povo decidir sem medo o seu futuro, contra todas as expectativas ( e ameaças). Inglaterra fez isso pela segunda vez em menos de 100 anos. Primeiro, quando Churchill decidiu confrontar sozinho as hordas nazis. Agora, quando a maioria do povo decidiu sair da U.E., sabendo que tal pode levar à desagregação do Reino Unido. Mas a razão é essencialmente a mesma: o domínio germânico da Europa Continental. Naquele tempo, como agora, a questão que se coloca é o papel que a Inglaterra pode e deve ter face à supremacia teutónica. Mais uma vez escolheram o confronto, em vez do consenso e do apaziguamento. Por isso, apesar de todos os seus defeitos, temos que admirar a estamina e coragem do povo britânico. E também a dignidade e frontalidade do primeiro-ministro britânico que deu uma lição de democracia aos palradores continentais. (Compare-se com as tristes figuras que os nossos dirigentes fazem). Portugal tem uma lição a tomar deste referendo. O povo tem que tomar nas suas mãos o …

Errâncias

Os Antigos Gregos homenageavam os seus heróis olímpicos, a quem dedicavam admiração. Prova disso são as famosas Odes de Píndaro. Por isso, poder-se-á perguntar se os actuais futebolistas serão os heróis gregos da modernidade. Pessoalmente, tenho dúvidas, mas o certo é que inflamam multidões e criam uma dependência multitudinária incessante. Talvez constituam as novas elites que o Presidente da República quer criar, depois de ter causticado as velhas elites ( a que curiosamente sempre pertenceu, quer no antigo regime, quer agora...o que não deixa de ser irónico, mas enfim...). A propósito de velhas elites, é demasiado suspeito o silêncio que envolve as investigações a Ricardo Salgado e José Sócrates. Quem estuda um bocadinho percebe que há uma ligação intrínseca e profunda entre estes dois personagens, o enriquecimento deles e doutros, e o descalabro de Portugal, e no entanto, na realidade o que assistimos é uma investigação às "festinhas", com medo de algo. E Angola, e Brasil…

Sair ou ficar? A União Europeia, o Reino Unido e Portugal.

A União Europeia foi uma forma que vários países encontraram para resolver o problema alemão após a Segunda Guerra Mundial. A Alemanha é demasiado grande e poderosa para estar no centro da Europa sem fazer estragos.Os EUA e a Inglaterra, fartos de ver a Alemanha a devastar a Europa com as suas guerras, mas sabendo que não podiam reduzir o país a um território pastoril (como queria o Secretário do Tesouro norte-americano Morgenthau) devido à Guerra Fria, congeminaram uma comunidade de Estados que ancorasse a Alemanha no Bloco Ocidental, mas a colocasse debaixo de controlo, designadamente francês. Os franceses conduziriam a política da Europa Continental, enquanto a Alemanha se fortalecia para enfrentar os Soviéticos, sem perturbar os restantes países. E a realidade, é que com várias vicissitudes históricas, o modelo funcionou razoavelmente bem durante quase 50 anos. A Europa Ocidental foi um espaço de prosperidade e paz, e a Alemanha desempenhou com perfeição o seu papel de locomotiva e…

Crónicas de Sete Rios: a triste brincadeira das 35 horas

O ideal era trabalhar 20 horas por semana, e consagrar o direito à preguiça na Constituição.  Enquanto tal não acontece temos que viver com a realidade. A realidade é que a função pública está a levar cortes há anos. O pessoal diminui. A experiência do pessoal diminuiu,e (talvez tirando o Fisco, que se tornou numa Polícia Secreta Política) os vários departamentos da função pública estão a funcionar mal. Falo de casos concretos: um atendimento no SEF está a demorar muitas vezes mais de 6 meses, tornando muitas vezes os estrangeiros que querem viver em Portugal, entes ilegais sem direitos. O ACT de Sintra está com atrasos superiores a 2 meses, não dando vazão às variadas necessidades dos trabalhadores. No Hospital de Santa Maria há sempre falta de pessoal. As descrições dos doentes assemelham-se muitas vezes a um Inferno de Dante. E mais casos poderia mencionar. Mas só estes exemplos permitem concluir que ou a função pública está mal gerida, ou tem falta de pessoal, ou os funcionários são pre…